Moedas Sociais e Bancos Comunitários de Desenvolvimento em evidência – I

Matéria de hoje publicada pela agência de notícias Lusa.

Brasil: Itas, sabiás e feiticeiros substituem moeda nacional e ajudam comunidades pobres
Brasília, 11 Abr (Lusa) – Ita significa pedra em tupi-guarani, mas na aldeia dos índios Tremembé, que ajudaram os portugueses a expulsar os holandeses do Estado do Ceará no século XVI, ita também é o nome de uma moeda que tem trazido muitos benefícios para a comunidade.

Lusa
Sábado, 11 de Abr de 2009

*** Carla Mendes, da Agência Lusa ***

Brasília, 11 Abr (Lusa) – Ita significa pedra em tupi-guarani, mas na aldeia dos índios Tremembé, que ajudaram os portugueses a expulsar os holandeses do Estado do Ceará no século XVI, ita também é o nome de uma moeda que tem trazido muitos benefícios para a comunidade.

A ita é utilizada para comprar mercadorias, contratar serviços e alavancar os empreendimentos solidários, com validade apenas na área de actuação do Banco de Tremembé, um dos 44 bancos comunitários que existem hoje no Brasil.

“Em Maio a gente comemora um ano que a ita circula na nossa localidade e este projecto já amparou muita gente pobre e está ajudando a desenvolver toda a nossa aldeia, porque o dinheiro fica na nossa comunidade, não vai para fora”, disse à Lusa o cacique Tremembé João Venâncio, 54 anos.

O cacique contou que muitos indígenas usam a ita para comprar alimentos, gás e outros produtos e que tem crescido o número de pessoas beneficiadas com empréstimos do Banco de Tremembé.

“Mudou a vida da nossa comunidade, amenizou muitas carências. Agora uma pessoa tem a chance de pedir empréstimo para melhorar a sua lavoura e quase não paga juros. É muito genial. Foi uma coisa que veio do céu mesmo”, afirmou Venâncio.

O líder indígena lembrou que o Banco de Tremembé atende também não-índios, como pequenos comerciantes da região.

É o caso de Lúcia Rosa dos Santos, 51 anos, dona de uma pousada e de um restaurante em Almofala, vilarejo do município de Itarema, a cerca de 250 quilómetros da capital Fortaleza.

“A gente recebe a moeda normalmente e troca no banco Tremembé – uma ita por um real. E tem dado certo, porque está havendo mais dinheiro na nossa comunidade”, disse Lúcia Rosa à Lusa.

De acordo com o coordenador-geral do projecto de bancos comunitários do Ministério do Trabalho e Emprego, Haroldo Mendonça, a experiência que atinge sete estados brasileiros surgiu há 11 anos no bairro Palmeiras, na periferia de Fortaleza, com a criação de uma moeda local, a palma.

O sucesso do projecto levou o Governo Lula a difundir, a partir de 2005, a metodologia dos bancos comunitários, uma ferramenta eficaz de desenvolvimento local.

“Os bancos comunitários não visam ao lucro e funcionam como um muro para o dinheiro não sair da comunidade. Por detrás desta iniciativa, há a intenção de realizar o desenvolvimento local e recuperar a economia de comunidades empobrecidas. É muito mais que a experiência de Bangladesh de microcréditos”, destacou Mendonça à Lusa.

Hoje são muitas as chamadas moedas sociais a circular no Brasil. Além da ita, há a castanha, a paz, o sabiá, o guará, o girassol, o cocal, o feiticeiro, entre outras – todas com cotação oficial idêntica à da moeda brasileira.

Segundo o coordenador-geral do projecto, os bancos comunitários movimentaram nos últimos dois anos cerca de 1,2 milhões de reais (400 mil euros) e o índice de inadimplência não ultrapassa dois por cento, quatro vezes menor do que a taxa do mercado financeiro convencional.

“Existe uma fiscalização dentro da própria comunidade, que é a dona do negócio. A fofoca é o instrumento mais eficiente neste caso. Os vizinhos ajudam o agente de crédito do banco a conceder o aval para os empréstimos”, explicou Haroldo Mendonça.

Cada banco comunitário, conta na criação com a parceria do Banco do Brasil, que empresta 30 mil reais (10 mil euros) a juros muito baixos.

Recebe também o apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que capacita lideranças locais e realiza encontros com empreendedores das comunidades.

A intenção do Governo brasileiro é criar mais 150 bancos comunitários até ao final de 2010 e quadruplicar a circulação das moedas alternativas no país.

Apesar de acompanhadas pelo MTE, as emissões das moedas sociais ainda não são controladas por nenhum órgão oficial.

Já há, entretanto, um projecto a tramitar no Congresso Nacional que institui mecanismos de controlo para os bancos comunitários.

A previsão é de que o projecto parlamentar seja votado dentro de um ano.

Lusa/Fim

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