Estamos na metade do ano de 2009, já é momento de começar a pensar no segundo semestre e no ano de 2010, que será muito intenso e breve.
Vou começar, aos poucos, uma breve avaliação, uma espécie de pequeno balanço do ano, do ponto de vista de quem está olhando daqui, de Brasília, da coordenação do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, a esta primeira fase de 2009.
1. Balanço – 1o. semestre de 2009
Antes de mais nada, preciso anotar que os projetos desencadeados no decorrer do segundo semestre do ano passado, do PDI, Bolsa Família e Capacitaçao de Agentes de Crédito, estão em andamento.
Algumas dificuldades que tenho observado:
1.1. Tramitação dos Processos e Projetos
Ainda persiste, nos órgãos públicos, uma cultura que precisa ser superada quando se trata do relacionamento com parceiros, especialmente da sociedade civil. Infelizmente ainda persiste o problema da descoordenação entre diversas áreas, replicação de trabalhos, certa letargia em processos que poderiam ser bastante mais ágeis e, com muita frequência, a necessidade de convencimento de que um trabalho em andamento tem relevância para a área finalística, para a efetivação da política pública.
Destaque para certo sub-aproveitamento das disponibilidades de recursos informacionais hoje presentes. Os processos seguem um formato ainda em papel, quando já existe tecnologia para que tramitassem digitalizados. Os funcionários ainda utilizam pouco o conceito de bases de dados padronizadas e compartilhadas, de modo que a localização de informações ainda tende a ser morosa; quando os dados são localizados, exigem harmonização, demandando esforços que poderiam ser supridos por um maior planejamento dos processos operacionais básicos.
No caso do microcrédito, nossos projetos todos foram firmados tendo como objetivo dar execução ao orçamento 2008, ainda que a partir do início de 2009. Mas, apenas o processo de abertura de contas bancárias e repasses iniciais de recursos, que teoricamente deveriam ser processos simples de realizar-se demoraram cerca de 3 ou 4 meses, na maioria dos casos, sendo que no mais grave de todos, a conta foi aberta em final de maio ou início de junho. Destaque: a culpa não recai apenas no Ministério. Também o banco oficial envolvido e em alguns casos a própria organização parceira tem parcelas de responsabilidade nesses atrasos.
Obviamente, isto resultou em retardamento dos projetos, mas que aos poucos vai sendo superado, felizmente. O que vale destacar é que faz-se necessário um acompanhamento muito direto e cotidiano, especialmente dos próximos passos, para que os projetos não sejam inviabilizados, por causa dos problemas de ordem burocrática.
1.1.1 Convênios do PDI 2008
Os projetos em andamento via convênios, referentes ao PDI, tem caminhado bem, ao que me parece. As organizações noticiam etapas já realizadas, aperfeiçoamento de softwares, contratação de consultores para treinar e reciclar pessoal. A maior dificuldade parece estar sendo a referente à “Análise de Risco” (Rating), uma vez que a única instituição no Brasil que realizava esse tipo de serviço, foi embora do país e, em consequência, não há como dar vazão ao projeto aprovado pela coordenação do PNMPO. Ainda estou procurando forma de viabilizar essa proposta, mas já avalio que talvez seja impossível.
1.1.2. Parcerias – Microcrédito e Bolsa Família
Aos poucos, as instituições começam a realizar o trabalho de visitas aos beneficiários do Bolsa Família. Existem dificuldades óbvias num trabalho como este: certa desatualização dos cadastros, uma vez que as pessoas mudam-se, as situações de vida se alteram. De Brasília, é impossível garantir que o cadastro seja absolutamente fidedigno à situação vivida pelas famílias no momento do cadastro. Todo cadastro requer esforço permanente de atualização. Mas, o fato é que as entidades de microcrédito tem detectado este problema e, aos poucos, soluções estão sendo construídas: as entidades estão buscando os agentes locais de assistência social, o CRAS, todos têm se esforçado para construir caminhos de superação dos entraves. Se não fosse assim, não haveria razão para a parceria.
Há casos em que os assistentes sociais tem ido junto com os agentes de crédito às comunidades onde há maior quantidade de cadastrados no Bolsa Família, para ajudar na difusão de informações sobre a disponibilidade do microcrédito.
O ritmo inicial, desde o final de março, quando os repasses financeiros foram feitos, ainda é pequeno, mas há tendência a se agilizar. O importante é que este é um projeto com um perfil de extrema relevância e deve merecer dos dois ministérios, MTE e MDS, muita atenção e empenho.
O ideal seria que pudéssemos ampliar o orçamento disponível e incrementar fortemente o número de entidades engajadas. Creio que neste projeto, mantida a lógica com que foi desenhado, há efetivamente ganhos tanto para a construção da política pública, que implica em integração de ações, quanto para a interlocução com a sociedade civil e suas entidades, que atuam partindo de sua vocação e lógica, e para o público de baixa renda, que passa a dispor de uma rede de prestação de serviços de financiamento via microcrédito, com o acompanhamento valioso dos agentes de crédito, o que faz toda a diferença no processo de melhoria dos pequenos empreendimentos.
1.1.3 Capacitação de Agentes de Crédito
A parceria firmada para viabilizar a capacitação de 160 agentes de crédito está já em fase conclusiva. Para a coordenação do PNMPO, representou um ganho administrativo impressionante. O uso do instrumento do Termo de Parceria para que uma entidade ficasse responsável por toda a gestão de viagens, hospedagem e alimentação de todos os 160 agentes de crédito, bem como pela contratação de consultores, elaboração de material e fornecimento de equipamentos multimídia ou outros, revelou-se 150% acertada.
Quem participou de viagens com o apoio do Ministério ou esteve em reuniões e eventos do PDI 2006-2007, que coordenei, sabe quão mais difícil e problemático era resolver e viabilizar os eventos.
A Adesobrás, neste ponto, está de Parabéns!!! Ressalto: ela cumpriu muito bem todas as tarefas necessárias, com méritos!
Quanto ao teor da capacitação, não pude participar dos cursos. Obviamente, sempre haverá os que defenderão ou apontarão dificuldades. As avaliações fornecidas pelos agentes de crédito presentes dão-nos a impressão de que alguns pontos poderiam ser melhor trabalhados, mas de modo algum apontam para insatisfação. O resultado geral parece ter sido positivo. Um elemento importante é que houve a inclusão de uma perspectiva que discutisse o associativismo e a economia solidária, pelos agentes de crédito, como forma de induzí-los a incentivar os microempreendedores a migrarem, aos poucos, para agregações e formas coletivas de trabalho, produção, compras, etc… Além disso, também foi tratada a nova legislação sobre o MEI – Microempreendedor Individual, em que o ganho principal dos empreendedores populares é de natureza previdenciária. Isso foi feito com a presença de um representante do Ministério da Previdência nos cursos, denotando uma articulação em que o Programa de Microcrédito rompe o isolamento para interagir com as diversas políticas públicas que possam afetar ou beneficiar o empreendedor popular.
Aplicamos um questionário, cujas respostas expõem de modo muito interessante o pensamento dos agentes de crédito sobre sua atividade.
Há um testemunho que copiei e quero partilhar com todos, porque considerei fantástico. Lúcido, comprometido, transmite com clareza informações sobre quanto são valiosos os agentes de crédito das organizações de microcrédito, e como sua atividade não pode ser substituída por uma mera transação financeira quando se estiver pensando na realização do microcrédito.
O agente de crédito deve atuar de forma direta e ativa na região ou comunidade que atua, isto é, deve estar sempre em contato com os presidentes de bairro, associações, clubes de mães, enfim deve ter ligação com toda e qualquer liderança que atue na sua comunidade.
O agente de crédito deve prospectar clientes informando sobre o microcrédito, a forma em que a instituição atua, como pode ajudá-la.
Devemos ser coerentes, compreensivos e atuantes perante o nosso cliente, mas jamais devemos esquecer que olhar com humanidade também exige tecnicidade. Precisamos e devemos fazer a inclusão dos nossos clientes de forma justa, sincera e ética, jamais endividando-o apenas para cumprir metas.
Também precisamos ser perspicaz, observadores, pacientes, humildes com aqueles que não tem instrução; sermos inteligentes para saber distinguir a situação e o caráter de cada um dos nossos clientes.
Analisar com técnica, ter informações claras a fim de realizar um trabalho que ambos saiam ganhando, a instituição para não perder seu capital e o cliente, bom, este que realmente possa melhorar sua vida, concretizar seu sonho. Deve-se conceder empréstimo de forma segura, orientada, planejada e acompanhar o desenvolvimento do seu cliente.
Enfim, um agente é um ser multi-disciplinar, isto é, capta, analisa, faz cobrança, visita, orienta sutilmente, é flexível, é ouvinte, argumenta, batalha no comitê, é pró-ativo e tem sonhos juntos com aqueles que querem uma vida melhor.
É um texto de uma jovem agente de crédito, do Sul, que parabenizo!
Continuarei este balanço num segundo artigo.
Bom domingo a todos!