Bancos só emprestam 57% da verba do microcrédito

O Estadão publicou a matéria que transcrevo abaixo. O texto é interessante porque aponta a resistência do setor bancário a investir no microcrédito. Mesmo com o atual cenário de queda na taxa de juros, persiste a resistência a conceder crédito à população de baixa renda, bem como persiste a resistência em repassar disponibilidades financeiras para as instituições de microcrédito poderem acelerar o ritmo de expansão do número de clientes atendidos por elas.

Uma matéria com esse teor pode representar uma oportunidade de pressão dos bancos para o governo reduzir o percentual de 2% das exigibilidades que ficam retiros em caso de não aplicação no crédito à baixa renda. Uma medida como essa seria péssima, uma verdadeira derrota do governo.

Por outro lado, na linha daquilo que formulamos aqui, e que propus no Ministério, o coordenador do PNMPO, Max Coelho, aponta a necessidade de avançar na política de incentivo aos repasses dos recursos dos bancos para as instituições de microcrédito. Se o dinheiro fica parado, que os bancos sejam estimulados a ampliar os repasses financeiros a estas organizações, tendo em contrapartida a liberação de valores do compulsório. Minha proposta inicial foi de que se pensasse em algo como 3 por 1. Ou seja: para cada R$ 1,00 concedido a uma instituição de microcrédito habilitada ao PNMPO, o banco teria disponíveis R$ 3,00. Há quem considere a proposta exagerada. Eu não acho. Se em 5 anos os bancos preferiram a retenção do que aplicar no microcrédito, não será com incentivos irrisórios que ele se interessará pela operação. Por essa proposta, emprestar 50, 100 milhões de reais, torna-se interessante: o banco recupera três vezes esse montante para utilizar em sua operação normal. Basta assinar um financiamento com uma instituição de microcrédito.

Agora, a matéria contém um equívoco, também. Trata de duas ações como sendo uma só… e prejudica a informação objetiva, com isso. O governo Lula criou duas ações de estímulo ao microcrédito, desde 2003. A primeira, em junho daquele ano, focada na determinação da retenção da exigibilidade, estes 2% de compulsório, que o representante da Febraban critica, e que o próprio segmento do microcrédito achou insuficiente, ainda em 2003, como pode ser atestado pela leitura da Carta de Blumenau, já postada aqui no Blog. A segunda, a criação do PNMPO – Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, em novembro de 2004, com a MP 226, depois convertida na Lei 11.110, em 25 de abril de 2005. O PNMPO desde então, teve um crescimento extraordinário.

Apenas a título de exemplo, o valor concedido em microcrédito produtivo orientado no primeiro trimestre de 2009 está bem próximo daquele concedido ao longo de todo o ano de 2005, quando se deflaciona o número daquele ano pelo INPC. O que quer dizer que, em valores reais, o PNMPO hoje é quase 4 vezes maior do que era em 2005, uma expansão de mais de 300% em apenas pouco mais de 4 anos. Excetuando algumas poucas organizações que tiveram acesso a funding, como tenho apontado, esta taxa de expansão mostra o sucesso absoluto do programa.

O modelo baseado na rede de organizações (OSCIP, cooperativas de crédito, SCM-EPP e agências de fomento) é um sucesso. A expansão só não é maior porque os próprios agentes financeiros, inclusive públicos, tem dificuldade em valorizar esse modelo. Até no governo há aqueles que gostariam que os bancos públicos ocupassem esse espaço com exclusividade. Excetuando o caso do Banco do Nordeste, que começou a construir uma proposta adaptada ao tipo do seu mercado regional, há 10 anos atrás, com o Crediamigo, o BB e a Caixa não tiveram o mesmo êxito. Recentemente, a Caixa passou a ter um papel muito mais relevante, assumindo a atribuição de conceder financiamentos na forma de repasse às instituições de microcrédito. É notável como isso oxigenou o ambiente no setor. Permitiu à Caixa ampliar velozmente sua carteira de microcrédito produtivo orientado, com um risco mínimo. Com pouco contratos firmados com as instituições de microcrédito, um custo operacional muito menor, uma carteira muito mais significativa. Esse deve ser o modelo a ser utilizado.

Além disso, neste momento, os bancos públicos tem que focar-se no enfrentamento da crise, em escalas de bilhões. O BB tem que ingressar no mercado habitacional e de veículos. A Caixa, além de tudo o que já faz, tem que ocupar-se das obras do PAC.

Que financiem as operações de microcrédito repassando recursos crescentemente às instituições de microcrédito, que possuem conhecimento sobre o setor, metodologia apropriada na atuação dos agentes de crédito e histórias exitosas em todas as regiões do país.

Programa lançado há cinco anos não deslancha porque os bancos preferem deixar o dinheiro parado no Banco Central a correr risco com os empréstimos

Edna Simão, BRASÍLIA

Mais de cinco anos se passaram e o programa de estímulo ao microcrédito lançado pelo presidente Lula continua patinando. Em maio, os bancos teriam que destinar R$ 2,427 bilhões para essas operações, mas apenas R$ 1,383 bilhão (57%) chegou às mãos da população de baixa renda. Com medo de ter prejuízo, os bancos preferem deixar o dinheiro parado nos cofres do Banco Central (BC), sem remuneração.

A expectativa inicial do Ministério da Fazenda era de que, com a queda dos juros no País, os bancos passassem a se interessar mais por essa modalidade, mas não foi o que ocorreu. Para reverter o cenário, técnicos do Ministério do Trabalho estão realizando estudos, mas não há prazos para que alterações sejam promovidas.

“Estamos sempre nos reunindo com os técnicos do Ministério da Fazenda para resolver o problema. O dinheiro pertence aos bancos e poucos atuam com o microcrédito. Temos de mudar isso com algum tipo de incentivo”, avalia o coordenador-geral do Programa Nacional de Microcrédito Orientado (PNMPO) do Ministério do Trabalho, James Max Brito Coelho.

O principal fundo do programa é justamente o dinheiro dos depósito à vista dos bancos. “Com o estouro da crise, no ano passado, houve uma retração do crédito como um todo. O microcrédito sofreu pouco porque está acostumado a conviver com o fato de não ter muito dinheiro”, comenta Coelho.

No ano passado, o programa emprestou R$ 1,807 bilhão, um aumento de 64,3% em relação a 2007. Se os bancos se interessassem pelo microcrédito, esse valor poderia ter sido muito maior.

Para não operar com a linha, as instituições financeiras alegam que o governo estabeleceu muitas amarras para a liberação dos recursos, como os limites para cobrança de juros – até 2% para pessoa física e 4% para o microempreendedor.

Hoje, por exemplo, o crédito consignado pode ser encontrado por um custo menor que o exigido no programa. Além disso, só podem ser beneficiadas pessoas físicas que movimentarem, em média, até R$ 1 mil em suas contas.

Tantos critérios, na avaliação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), exigem investimentos elevados, o que nem todos estão dispostos a fazer. Existem dúvidas sobre a lucratividade do negócio.

“O governo lançou esse programa sem fazer uma análise técnica e qualitativa. Foi uma decisão muito mais política”, destaca assessor técnico da Febraban, Adeniro Vian. “Esse resultado era previsível.”

Vian considera que, na prática, o governo só criou um novo compulsório (recursos que as instituições são obrigadas a deixar depositados no BC). “O pior negócio para um banco é deixar o dinheiro parado no BC. Mas não dá para fazer microcrédito nas condições exigidas”, ressalta o técnico da Febraban.

Como não poderia ser diferente, quem puxa a aplicação dos recursos do microcrédito, com a exigibilidade dos depósitos à vista, são os bancos públicos, como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Banco do Nordeste. Na avaliação do superintende nacional de Clientes Renda Básica da Caixa, Milton Kruger, a operação é lucrativa no médio e longo prazos.

“Não adianta querer ter um resultado em dois ou três meses; é preciso primeiro ter escala para conseguir”, diz Kruger. “Colocar o crédito à disposição de pessoas menos favorecidas ajuda a fomentar a economia. No mês passado, a Caixa aplicou R$ 175 milhões, praticamente 100% da exigibilidade, para empréstimos de baixo valor destinado ao consumo.

ESTÍMULO

Neste momento de crise, o destravamento do microcrédito poderia ajudar o governo a estimular o aumento do consumo, viabilizando a criação de novos postos de trabalho. Para o economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marcelo Neri, mesmo sendo poucas, as operações de pequeno valor não tiveram redução com o agravamento da crise econômica. Isso porque, pelo menos por enquanto, a baixa renda não sentiu os impactos da desaceleração da atividade.

O inevitável foi um aumento da inadimplência. No Crediamigo, do Banco do Nordeste, uma das experiências mais bem-sucedidas do País, o nível do calote de algo inferior a 1% para 1,44% neste ano.

Mas a expectativa é de que esse mercado do microcrédito cresça nos próximos anos. Até porque a baixa renda está entrando no mercado consumidor. Para o técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), João Silvério, a criação da figura do microempreendedor individual pode motivar os bancos a aplicarem em pequenas operações.

Esses empreendedores – com renda bruta anual de até R$ 36 mil no ano anterior – terão CNPJ, o que facilita a análise de crédito pelas instituições financeiras.

Fonte: Estadão, 22 de julho de 2009. p. B-5.

Nobel da Paz defende aproveitar crise para mudar sistema financeiro mundial

Extraído do UOL

02/07/2009 – 10h33

da Efe, em Pequim

A crise econômica mundial pode e deve ser utilizada para mudar um sistema financeiro global ‘pensado só para alguns poucos privilegiados’, e cujas instituições e conceitos ‘criam pobreza artificialmente’, disse nesta quinta-feira o prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus, em Pequim (China).

O banqueiro bengalês disse que a atual crise é “a pior que se poderia imaginar”, mas afirmou que a imprensa, centrada nas finanças, esquece com frequência que é também “uma crise alimentar, energética e ambiental”.

Sobre isso, Yunus disse que é o momento de os economistas e políticos de todo o mundo, reunidos de hoje até o dia 4 na Cúpula Global de “Think Tanks” (centros de pesquisa e análise) em Pequim, aproveitem o momento para “desfazer o feito”.

“Todo mundo está ocupado em pensar em como ‘voltar à normalidade’. Mas de que normalidade estamos falando? Eu não quero voltar à situação anterior, é preciso criar um marco para não voltar a criar os problemas da ‘normalidade’ que havia antes”, disse.

Yunus propôs em seu discurso, entre outros, uma remodelação dos sistemas financeiros, que no passado não davam lugar aos mais desfavorecidos e que obrigaram a que pessoas como ele formulassem um sistema financeiro à parte, o dos microcréditos.

Por último, o prêmio Nobel propôs mudar o próprio conceito dos negócios, “já que agora acredita-se que as pessoas apenas buscam o máximo lucro, e as pessoas têm muitas outras dimensões”.

“O sistema se centra em nossa parte ‘egoísta’ e esquece nosso lado ‘altruísta’. Sugiro criar dois mundos dos negócios, um que faça dinheiro e outro que o use em ‘negócios sociais’”, disse Yunus aos presentes ao fórum em Pequim.

Balanço do PNMPO – 1o. semestre de 2009

Estamos na metade do ano de 2009, já é momento de começar a pensar no segundo semestre e no ano de 2010, que será muito intenso e breve.

Vou começar, aos poucos, uma breve avaliação, uma espécie de pequeno balanço do ano, do ponto de vista de quem está olhando daqui, de Brasília, da coordenação do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado, a esta primeira fase de 2009.

1. Balanço – 1o. semestre de 2009

Antes de mais nada, preciso anotar que os projetos desencadeados no decorrer do segundo semestre do ano passado, do PDI, Bolsa Família e Capacitaçao de Agentes de Crédito, estão em andamento.

Algumas dificuldades que tenho observado:

1.1. Tramitação dos Processos e Projetos

Ainda persiste, nos órgãos públicos, uma cultura que precisa ser superada quando se trata do relacionamento com parceiros, especialmente da sociedade civil. Infelizmente ainda persiste o problema da descoordenação entre diversas áreas, replicação de trabalhos, certa letargia em processos que poderiam ser bastante mais ágeis e, com muita frequência, a necessidade de convencimento de que um trabalho em andamento tem relevância para a área finalística, para a efetivação da política pública.

Destaque para certo sub-aproveitamento das disponibilidades de recursos informacionais hoje presentes. Os processos seguem um formato ainda em papel, quando já existe tecnologia para que tramitassem digitalizados. Os funcionários ainda utilizam pouco o conceito de bases de dados padronizadas e compartilhadas, de modo que a localização de informações ainda tende a ser morosa; quando os dados são localizados, exigem harmonização, demandando esforços que poderiam ser supridos por um maior planejamento dos processos operacionais básicos.

No caso do microcrédito, nossos projetos todos foram firmados tendo como objetivo dar execução ao orçamento 2008, ainda que a partir do início de 2009. Mas, apenas o processo de abertura de contas bancárias e repasses iniciais de recursos, que teoricamente deveriam ser processos simples de realizar-se demoraram cerca de 3 ou 4 meses, na maioria dos casos, sendo que no mais grave de todos, a conta foi aberta em final de maio ou início de junho. Destaque: a culpa não recai apenas no Ministério. Também o banco oficial envolvido e em alguns casos a própria organização parceira tem parcelas de responsabilidade nesses atrasos.

Obviamente, isto resultou em retardamento dos projetos, mas que aos poucos vai sendo superado, felizmente. O que vale destacar é que faz-se necessário um acompanhamento muito direto e cotidiano, especialmente dos próximos passos, para que os projetos não sejam inviabilizados, por causa dos problemas de ordem burocrática.

1.1.1 Convênios do PDI 2008

Os projetos em andamento via convênios, referentes ao PDI, tem caminhado bem, ao que me parece. As organizações noticiam etapas já realizadas, aperfeiçoamento de softwares, contratação de consultores para treinar e reciclar pessoal. A maior dificuldade parece estar sendo a referente à “Análise de Risco” (Rating), uma vez que a única instituição no Brasil que realizava esse tipo de serviço, foi embora do país e, em consequência, não há como dar vazão ao projeto aprovado pela coordenação do PNMPO. Ainda estou procurando forma de viabilizar essa proposta, mas já avalio que talvez seja impossível.

1.1.2. Parcerias – Microcrédito e Bolsa Família

Aos poucos, as instituições começam a realizar o trabalho de visitas aos beneficiários do Bolsa Família. Existem dificuldades óbvias num trabalho como este: certa desatualização dos cadastros, uma vez que as pessoas mudam-se, as situações de vida se alteram. De Brasília, é impossível garantir que o cadastro seja absolutamente fidedigno à situação vivida pelas famílias no momento do cadastro. Todo cadastro requer esforço permanente de atualização. Mas, o fato é que as entidades de microcrédito tem detectado este problema e, aos poucos, soluções estão sendo construídas: as entidades estão buscando os agentes locais de assistência social, o CRAS, todos têm se esforçado para construir caminhos de superação dos entraves. Se não fosse assim, não haveria razão para a parceria.

Há casos em que os assistentes sociais tem ido junto com os agentes de crédito às comunidades onde há maior quantidade de cadastrados no Bolsa Família, para ajudar na difusão de informações sobre a disponibilidade do microcrédito.

O ritmo inicial, desde o final de março, quando os repasses financeiros foram feitos, ainda é pequeno, mas há tendência a se agilizar. O importante é que este é um projeto com um perfil de extrema relevância e deve merecer dos dois ministérios, MTE e MDS, muita atenção e empenho.

O ideal seria que pudéssemos ampliar o orçamento disponível e incrementar fortemente o número de entidades engajadas. Creio que neste projeto, mantida a lógica com que foi desenhado, há efetivamente ganhos tanto para a construção da política pública, que implica em integração de ações, quanto para a interlocução com a sociedade civil e suas entidades, que atuam partindo de sua vocação e lógica, e para o público de baixa renda, que passa a dispor de uma rede de prestação de serviços de financiamento via microcrédito, com o acompanhamento valioso dos agentes de crédito, o que faz toda a diferença no processo de melhoria dos pequenos empreendimentos.

1.1.3 Capacitação de Agentes de Crédito

A parceria firmada para viabilizar a capacitação de 160 agentes de crédito está já em fase conclusiva. Para a coordenação do PNMPO, representou um ganho administrativo impressionante. O uso do instrumento do Termo de Parceria para que uma entidade ficasse responsável por toda a gestão de viagens, hospedagem e alimentação de todos os 160 agentes de crédito, bem como pela contratação de consultores, elaboração de material e fornecimento de equipamentos multimídia ou outros, revelou-se 150% acertada.

Quem participou de viagens com o apoio do Ministério ou esteve em reuniões e eventos do PDI 2006-2007, que coordenei, sabe quão mais difícil e problemático era resolver e viabilizar os eventos.

A Adesobrás, neste ponto, está de Parabéns!!! Ressalto: ela cumpriu muito bem todas as tarefas necessárias, com méritos!

Quanto ao teor da capacitação, não pude participar dos cursos. Obviamente, sempre haverá os que defenderão ou apontarão dificuldades. As avaliações fornecidas pelos agentes de crédito presentes dão-nos a impressão de que alguns pontos poderiam ser melhor trabalhados, mas de modo algum apontam para insatisfação. O resultado geral parece ter sido positivo. Um elemento importante é que houve a inclusão de uma perspectiva que discutisse o associativismo e a economia solidária, pelos agentes de crédito, como forma de induzí-los a incentivar os microempreendedores a migrarem, aos poucos, para agregações e formas coletivas de trabalho, produção, compras, etc… Além disso, também foi tratada a nova legislação sobre o MEI – Microempreendedor Individual, em que o ganho principal dos empreendedores populares é de natureza previdenciária. Isso foi feito com a presença de um representante do Ministério da Previdência nos cursos, denotando uma articulação em que o Programa de Microcrédito rompe o isolamento para interagir com as diversas políticas públicas que possam afetar ou beneficiar o empreendedor popular.

Aplicamos um questionário, cujas respostas expõem de modo muito interessante o pensamento dos agentes de crédito sobre sua atividade.

Há um testemunho que copiei e quero partilhar com todos, porque considerei fantástico. Lúcido, comprometido, transmite com clareza informações sobre quanto são valiosos os agentes de crédito das organizações de microcrédito, e como sua atividade não pode ser substituída por uma mera transação financeira quando se estiver pensando na realização do microcrédito.

O agente de crédito deve atuar de forma direta e ativa na região ou comunidade que atua, isto é, deve estar sempre em contato com os presidentes de bairro, associações, clubes de mães, enfim deve ter ligação com toda e qualquer liderança que atue na sua comunidade.

O agente de crédito deve prospectar clientes informando sobre o microcrédito, a forma em que a instituição atua, como pode ajudá-la.

Devemos ser coerentes, compreensivos e atuantes perante o nosso cliente, mas jamais devemos esquecer que olhar com humanidade também exige tecnicidade. Precisamos e devemos fazer a inclusão dos nossos clientes de forma justa, sincera e ética, jamais endividando-o apenas para cumprir metas.

Também precisamos ser perspicaz, observadores, pacientes, humildes com aqueles que não tem instrução; sermos inteligentes para saber distinguir a situação e o caráter de cada um dos nossos clientes.

Analisar com técnica, ter informações claras a fim de realizar um trabalho que ambos saiam ganhando, a instituição para não perder seu capital e o cliente, bom, este que realmente possa melhorar sua vida, concretizar seu sonho. Deve-se conceder empréstimo de forma segura, orientada, planejada e acompanhar o desenvolvimento do seu cliente.

Enfim, um agente é um ser multi-disciplinar, isto é, capta, analisa, faz cobrança, visita, orienta sutilmente, é flexível, é ouvinte, argumenta, batalha no comitê, é pró-ativo e tem sonhos juntos com aqueles que querem uma vida melhor.

É um texto de uma jovem agente de crédito, do Sul, que parabenizo!

Continuarei este balanço num segundo artigo.

Bom domingo a todos!

Mais uma matéria sobre moeda social

Parece que a experiência das moedas sociais começa efetivamente a ganhar alguma repercussão pela mídia. Em geral, as notícias acentuam mais a promessa da moeda social quanto à retenção do dinheiro na comunidade local, entendendo que este seja um meio de estímulo à atividade econômica.

Não se reflete muito sobre os elementos sociais que possibilitam a realização desse tipo de experiência: o perfil dos agentes que emitem a moeda, o trabalho comunitário necessário… Também não se consideram as questões mais pertinentes à economicidade: a paridade, por exemplo… ou os montantes envolvidos, o enfrentamento dos custos financeiros dos investimentos ou a sustentantibilidade das instituições emissoras.

A experiência com as moedas sociais precisa ser estimulada, mas compreendida com mais complexidade.

Aqui o link para vídeo bastante interessante sobre o assunto.

Finanças Solidárias e o fortalecimento da economia solidária na dinâmica das comunidades

Para quem viveu, como eu, o engajamento nos movimentos pastorais e tem conhecimento histórico do desenvolvimento da trajetória das pastorais sociais no Brasil, a simpatia pelo Estado do Espírito Santo é imensa. Além do nome do Estado, que já é de per si fator de inspiração, lembro-me de que o I Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, as CEB’s, aconteceu em Vitória, ainda em 1975. Frei Betto, dominicano que assessorou o Programa Fome Zero no início do governo Lula, também relata, com frequência, sua vivência no Espírito Santo, logo após deixar a prisão, em que foi mantido pelo Regime Militar.

Hoje, a Agência Brasil publicou uma matéria sobre um trabalho que vêm sendo desenvolvido em Vitória, compondo o “Território do Bem”. Envolve o desenvolvimento de diversas iniciativas sócio-econômicas, em que as finanças solidárias são um dos fatores de impulso.

O interessante é que a publicação dessa matéria coincide com uma reunião que tenho agendada com representantes da Secretaria do Trabalho do Espírito Santo, em que dialogaremos sobre o desenvolvimento desse tipo de iniciativa, juntamente com um representante da SENAES – Secretaria Nacional de Economia Solidária.

Em Vitória, um mundo de pequenos negócios combate a pobreza no Território do Bem

Luciana Lima
Enviada especial

Vitória – Um mundo de experiências de economia solidária. É assim que se pode definir o chamado “Território do Bem”, um complexo de oito comunidades pobres encravadas no meio da Ilha de Vitória, capital do Espírito Santo, onde circula a moeda social chamada Bem e funcionam o Banco Bem e uma infinidades de empreendimentos solidários.

É impossível contar a história do banco bem sem passar pela história das costureiras do Bem Arte Moda, pelas cozinheiras do Bem Nutrir, pela marcenaria do Bem Arte Madeira, pelas decoradoras do Bem Decorar, enfim, uma infinidade de iniciativas que trouxe dignidade para muitas famílias das comunidades pobres do “Território do Bem”, como é carinhosamente chamado pelos próprios moradores o com,plexo de comunidades em torno do Morro de São Benedito.

Tudo começou com o fracasso de uma iniciativa destinada a adolescentes de uma grande loja de departamento. A proposta, que tinha por objetivo gerar renda a partir da customização de roupas, não atraiu os adolescentes e o projeto morreu. No entanto, para as mães dos adolescentes, a idéia permaneceu.

Elas começaram confeccionar roupas e, em dezembro de 2002, foram convidadas para uma feira, no bairro de Itararé, bem no pé do morro. Produzir roupas para a feira foi o primeiro desafio pois não havia dinheiro. Elas precisavam de mais produtos e começaram a procurar empréstimos nos bancos. “Começamos a receber os ‘nãos’ da nossa vida. Ninguém emprestava. Todas tinham o nome sujo no mercado, não tinham como comprovar renda”, relata Leonora Michelin Labossière Mol, coordenadora do Banco Bem.

O dinheiro para produção veio de um dos fiéis da igreja localizada na Praia do Canto, bairro vizinho ao Território do Bem, com o poder aquisitivo dos mais altos da capital capixaba. “Conseguimos R$ 300 com uma pessoa da igreja e com esse dinheiro as mulheres compraram linha. Foram para essa feira e venderam tudo que levaram”, destacou Leonora.

O grupo contava com 60 mulheres e voltou para casa com R$ 800. Elas pagaram o empréstimo e na hora que colocaram os R$ 500,00 na mesa viram que não poderiam naquele ano realizar o sonho de comprar para cada uma um peru para a ceia de Natal. “Dava menos de R$10 para cada uma. Nesse dia 20 mulheres saíram do grupo outras 40 resolveram ficar”.

Até que uma das mulheres pensou: se, com R$ 300,00, elas tinham conseguido voltar para casa com R$ 500, poderiam conseguir muito mais se investissem parte desse recurso na produção e guardassem outra parte. Elas abriram uma conta de poupança, com R$300,00, e ficaram de dezembro de 2002 a dezembro de 2003 sem tirar um único tostão desse dinheiro. Os outros R$ 200,00 se transformaram em capital de giro. Compraram material para ser trabalhado nas máquinas de costuras que conseguiram por doação.

No final do outro ano, o sonho não era mais o peru de Natal. O grupo de mulheres estava bem menor porque muitas conseguiram emprego. Só oito mulheres se mantiveram no grupo. A partir daí, o grupo de moda continuou e ainda emprestou dinheiro para outras iniciativas no morro. Em 2003, uma das mulheres descobriu que o que ela gostava de fazer não era moda: era cozinhar. Ela aprendeu a fazer panetone e ainda peregrinou pelos bancos tradicionais em busca de um empréstimo para financiar sua produção. Não conseguiu com os bancos, mas conseguiu com as antigas parceiras da moda. Surgia aí o grupo da culinária, com quatro mulheres.

Hoje, esse grupo é formado por sete mulheres. Elas começaram a trabalhar à noite na cozinha emprestada de uma ONG, que atendia crianças e adolescentes durante o dia. Depois, veio o grupo da marcenaria. Esta mesma ONG tinha uma oficina de marcenaria, que foi desativada porque a legislação passou a considerar o trabalho em marcenaria impróprio para menores. Um grupo de 10 jovens, maiores de 18 anos que tinha passado pela marcenaria, resolveu assumir as atividades no local.

Eles criaram um jogo da velha de madeira e conseguiram uma encomenda de 400 jogos de uma grande empresa. Para comprar material, pegaram empréstimo com as mulheres da moda, pagaram, e, em um mês de trabalho, ganharam mais do que as mulheres tinham obtido o ano todo. Outro produto desenvolvido pelos meninos foi o porta-panetone de madeira no final do ano.

Shopping de microempreendedores

O universo do microempreendedor popular é povoado de ambientes de comercialização, em que agrupam-se muitos deles, competindo pelos clientes.

Milhares desses pontos de comercialização são ambientes irregulares, onde esses trabalhadores, sem nenhum amparo legal, reúnem-se para, aproveitando-se do fluxo regular de pessoas, estender no chão ou em barracas improvisadas seus produtos e efetuar suas vendas. Nestes casos, os empreendedores sofrem, com frequência, a rejeição pelo comércio regular, que aciona o poder público municipal, que, através das estruturas de fiscalização, promove os conhecidos “rapas”.

Há, além dessa situação, aquela em que o poder público organiza espaços regulares ou temporários para os empreendedores populares realizarem suas vendas: feiras, “camelódromos”, etc.

Mais recentemente, tem surgido espécie de “shoppings”, em que o poder público organiza espaços com boxes de venda, que aluga para empreendedores já mais estruturados.

Hoje, vi pela Tv e depois pela internet, um modelo similar a este, mas de origem privada, promovida por um microempresário bastante jovem, em modelo físico, mas similar àqueles encontrados nas lojas virtuais. A idéia é bastante interessante e, sem dúvida, pode ser replicado, ou reproduzido, inclusive sob estímulo das instituições de microcrédito. O apoio de uma organização de microcrédito para um projeto com o perfil apresentando na matéria não é difícil, e teria como efeito facilitar enormemente a mobilização e identificação de aliados, além de viabilizar a rentabilidade do microempreendedor.

Abaixo, a matéria publicada na internet, no site do Programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios, e em seguida o acesso para o vídeo.

Mercado livre! Empresários lançam novo formato de negócio para a comercialização de produtos. Eles contratam um galpão, que é dividido em pequenos espaços e alugam para micro e pequenos empreendedores.

Detalhe: na loja só ficam as mercadorias! Os funcionários do próprio espaço são responsáveis pelas vendas. Os negócios são variados: roupas, bijuterias, bolsas, cintos e bonecos de pano.

“A loja foi desenhada para atender essas pessoas que fazem seus produtos, criam, têm idéias e estão começando agora, mas não têm espaço para expor sua marca. Então, aqui o custo é baixo, o risco é baixo, e a procura de fato é muito grande”, explica o empresário Gustavo Ferriolli.

Primeiro, o empresário Gustavo Ferriolli escolheu um ponto comercial movimentado. Ele alugou e reformou um espaço. Depois dividiu e sublocou o lugar para dezenas de inquilinos com pequenos negócios.

No espaço, com 120 metros quadrados, foram instaladas 130 minilojas. Cada loja nada mais é do que uma “caixa”: em cima vai uma placazinha com o nome, e dentro os produtos.

O negócio deu tão certo que em uma semana todas as minilojas foram alugadas. Já existem 80 interessados em fila de espera.

O empresário aproveitou o quanto pôde as paredes e fixou as lojas caixa de um lado ao outro, de cima a baixo. Além do espaço, Gustavo disponibiliza nota fiscal de venda, divulgação na internet e vendedores treinados.

Quem aluga as minilojas só precisa vir ao local para repor mercadorias e receber o valor das vendas. O expositor acompanha as vendas de casa, com uma senha pela internet.

“Pela internet você faz tudo. Você tem tudo real pela internet, tudo escrito. Se está faltando alguma coisa, você marca o que está faltando e vem. É genial. A ideia da loja é muito bacana”, comenta a expositora Vanessa Lehman.

“É uma forma de ter um ponto de venda com muito menos risco, menos trabalho, porque aqui tem a equipe de vendedores. A gente acompanha as vendas e está bem mais focado em produzir”, acrescenta a expositora Raisa Terra.

As contas mostram que o negócio é lucrativo para os dois lados. O empresário Gustavo gasta R$ 19 mil por mês com aluguel do espaço e seis funcionários e fatura R$ 32 mil por mês com a locação das minilojas. Para o empresário, um dos segredos do sucesso é que ele focou num segmento numeroso: o das micro e pequenas empresas.

Para os inquilinos das pequenas caixas, é a oportunidade de montar um negócio com risco e investimento mínimos. O aluguel custa de R$ 80 a R$ 550, dependendo do tamanho da caixa. O contrato é por mês.

“Eu acho bom para os dois lados: bom pra mim, que não corro risco de vender pouco e ter de ficar numa loja que você está pagando e vendendo pouco; e bom para eles, porque vai ter sempre produtos que o cliente vai gostar”, acredita a expositora Cinara Di Ciommo.

“A principal vantagem é o modelo de negócio da loja ser custo fixo de aluguel, e não uma porcentagem. Assim, conforme o produto vai dando certo e a pessoa obtendo sucesso, vai tendo mais lucro e pode investir em novas idéias e novos produtos”, afirma o empresário Gustavo Ferriolli.

Só fica mesmo quem tem lucro. A regra é a seguinte: o empresário que não estiver vendendo bem tem de sair e dar lugar para outro. O expositor tem meta: precisa faturar por mês pelo menos duas vezes o valor do aluguel.

“Nesse modelo, quem decide pelos produtos da loja é quem está comprando. Isso dilui meu risco porque eu não preciso apostar num produto ou outro. Só ficam na loja mesmo os produtos que estão vendendo”, diz Gustavo Ferriolli.

Na briga por mercado, os expositores aproveitam ao máximo o espaço nas pequenas caixas e capricham na decoração: grama sintética, espelhos e lantejoulas na fachada atraem e encantam.

“Eu acho legal, porque cada caixinha é como se fosse um mundinho diferente. Cada caixinha é uma lojinha, e é bem criativo”, comenta a cliente Henrietta Prioste.

“Cada caixa é decorada pela própria pessoa que aluga. Então, a estética da loja é determinada pela criatividade dos expositores. Uma vitrine bem feita é a chave para conseguir vender mais”, disse a vendedora Stephanie Avari.

O espaço chega a receber 800 pessoas por dia. Os minilojistas comemoram. Tatiana Schmidt tem uma lojinha de objetos de decoração. Ela começou há três meses e sempre ultrapassou a meta de venda. Além disso, a pequena caixa de 25 centímetros virou referência para outros lojistas.

“Na região passa muita gente e tem divulgado muito. Eu estou recebendo convite para vender em outros lugares de pessoas que viram os meus produtos aqui”, comemora a expositora Tatiana Schmidt.

Outra expositora, Eunice Navarro, vende roupas femininas. Ela começou com a menor caixa e hoje aluga a maior. A pequena empresária vende por mês 14 vezes o valor do aluguel e já está na fila de espera por mais espaço.

“A gente paga bem pouquinho e tem um retorno bem grande, que compensa. Então eu acho que, para nós, foi o ideal essa caixinha”, comenta Eunice.

A variedade estimula o consumidor. Ele escolhe entre centenas de produtos. Com tanta oferta, acaba comprando mais. “Têm acessórios, tem roupa, moda íntima, tem de tudo”, aponta a cliente Ediva Ferreira.

“Tem muita variedade de coisas aqui. Você olha e vai pegando um monte de coisas no final das contas”, opina a cliente Clara Perazzo.

Para conhecer a iniciativa, vendo o vídeo, clique aqui.

Fundo Garantidor para Micro e Pequenas Empresas

Extraído do UOL

Recurso do fundo garantidor deve vir do BNDES e do BB

Empresas pequenas e médias são as que mais sofrem com a crise no crédito

Custo de empréstimos do BNDES deve se reduzido também para acompanhar a redução da taxa básica de juros, a Selic

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve anunciar hoje a criação do fundo garantidor de crédito para capital de giro das pequenas e médias empresas. O fundo será composto principalmente por recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O Banco do Brasil também poderá entrar com uma parcela.
O anúncio será feito durante reunião em Brasília com empresários que fazem parte do grupo de acompanhamento da crise. O grupo foi criado neste início do ano pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o governo acompanhar melhor a crise e poder tomar medidas com o objetivo de minimizar seus efeitos.
A criação de um fundo garantidor de crédito para as pequenas e médias empresas foi uma das principais reivindicações desse grupo. Em todas as reuniões realizadas neste ano, a restrição ao crédito, principalmente para as empresas de menor porte, sempre foi a maior queixa dos empresários.
O governo espera que a adoção do fundo garantidor sirva não só para os bancos destravarem o crédito para as pequenas e médias empresas como também para baixarem os juros dos empréstimos.
O risco da inadimplência é apontado pelos bancos como um dos principais fatores pelas altas taxas de juros cobradas às empresas de menor porte.
O fundo garantidor irá funcionar como uma espécie de aval para os bancos voltarem a conceder financiamento às empresas menores sem correrem o risco de o pagamento não ser efetuado. O fundo elimina o risco da inadimplência.
Os detalhes técnicos do fundo estavam sendo fechados ontem à noite. O montante não foi concluído, mas o dinheiro virá principalmente dos R$ 100 bilhões que a União se comprometeu a repassar para o orçamento do BNDES dos próximos dois anos. O Banco do Brasil também poderá entrar com uma parte. Ontem, a diretoria do banco foi informada pelo governo sobre a criação do fundo. Os recursos do fundo podem chegar a R$ 10 bilhões, mas o martelo não foi batido.

BNDES
O governo também deve baixar os juros do repasse para o BNDES. Hoje, a União cobra uma taxa de 2,5% mais os 6,25% da TJLP (taxa de juros de longo prazo, que serve como termômetro para os empréstimos do BNDES). Com a queda da Selic, a taxa básica de juros da economia, o governo deve abrir mão dos 2,5% ou de pelo menos uma parte.
O custo dos financiamentos do BNDES deve ser outro tema importante da reunião de hoje. Os empresários têm dito ao governo que o dinheiro do BNDES ficou caro depois que a Selic começou a baixar.
“O governo já deveria ter criado esse fundo antes”, disse o economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica da Fazenda no governo Lula.
De acordo com o economista, as pequenas e médias empresas são as que mais sofrem com a escassez do crédito. Apesar dos juros altos, os bancos não fecharam totalmente as portas para os empréstimos às companhias de maior porte.
O governo tinha uma expectativa de que, com a normalização do crédito para os bancos médios, o acesso para as pequenas empresas também melhorasse. Mas isso não aconteceu.
“O custo do dinheiro continua muito alto”, disse Paulo Godoy, presidente da Abidb (Associação Brasileira da Indústria de Base) e um dos participantes da reunião de hoje.

Manter viva a esperança!

O Ministro Mangabeira Unger publicou um texto sobre o desenvolvimento nacional discutindo a necessidade de mudar o padrão da realidade nordestina, onde concentra-se a maioria do microcrédito brasileiro. Participando do debate, inclui alguns comentários, dentre os quais o que se segue, em que lanço um desafio sobre uma espécie de grande plano de expansão do cooperativismo (economia solidária) e do microcrédito.

Óbvio que há uma enorme demanda reprimida enorme de bens e serviços.

Entretanto, repito, o problema não é de produção. É de apropriação.

Aumentar a produção não é dificil… evidentemente, requer investimentos, infra-estrutura, logística, tecnologia e capital humano. Mas, o incremento da produção deriva de um esforço de médio prazo, em alguns segmentos e longo prazo em outros.

Difícil é inserir a nova produção na competição global. A demanda interna é crescente, mas um “choque” de volume, a depender de sua dimensão, pode aumentar a ociosidade do parque industrial.

Um breve estancamento do relativamente curto ciclo de expansão da produção brasileira já representou perda de 5% dos empregos industriais, conforme notícias divulgadas nestes dias.

Isso já é suficiente para atestar que o modelo de desenvolvimento não pode concentrar-se mais neste padrão e que faz-se necessário repensar o debate da apropriação das riquezas.

A discussão sobre como o Brasil distribui o crédito, por exemplo, ainda está por ser feita. Os pequenos e microempreendimentos seguem, em sua grande maioria, sem canais regulares e vocacionados para seu atendimento.

Vamos discutir desenvolvimento regional considerando que temos apenas 2% do sistema financeiro nacional no cooperativismo de crédito?

Como pensar o “regional” sem poupança regional? Sem que a riqueza fique na região, mas concentre-se em conglomerados sediados no eixo Rio-São Paulo ou em transnacionais?

Quem será o sujeito “regional”? A “região” é apenas uma realidade geográfica para a expansão das plantas industriais?

Um novo plano de desenvolvimento nacional deveria ter como pressuposto estratégico que ambicionássemos promover e prover a instalação de dezenas, centenas de novas cooperativas de consumo, de crédito, de ensino, etc, num intervalo curto de tempo. Outras dezenas e centenas de novas organizações de microcrédito. Outras dezenas de sociedades garantidoras de crédito, mutualistas, focadas no atendimento da microempresa.

Fonte de recursos? Aportes iniciais de capital do BNDES, dos Fundos Constitucionais. Quanto? Um número… R$ 10 bilhões de reais. Capitalizar um total de 3.300 novas organizações destas que estou dizendo.

Baixamos as exigências para que a Caixa, por exemplo, constituísse uma nova empresa: Caixa Participações. Ou para que o BB pudesse comprar bancos menores, a Nossa Caixa. Por que não reduzir exigências e povoar o país com milhares de novas organizações focadas na atenção permanente à microempresa e aos empreendedores informais?

Cooperativas de Consumo poderiam ser estimuladas com capitalização inicial de R$ 2 milhões para montar pequenas redes locais de comercialização de produtos preferencialmente produzidos local/regionalmente, atraindo associados que pudessem migrar suas compras das grandes redes de hipermercados e supermercados, de modo a incentivar a geração de poupança local. Poupança não financeira. Poupança enquanto capital, enquanto produção, enquanto canal próprio de comercialização. Criar 2.000 cooperativas de consumo com essa característica implicaria no investimento de apenas R$ 4 bilhões de reais.

Impulsionar a criação de 500 cooperativas de crédito de interação solidária, patrocinando uma capitalização inicial de R$ 2.5 milhões para cada cooperativa, autorizando-as à realização dos diversos serviços financeiros disponíveis no mercado. Implicaria em aplicar mais R$ 1,25 bilhão de reais.

Repetir o número de 500 novas OSCIPs de microcrédito, com aplicação inicial de R$ 2,5 milhão de reais, e facultar a elas instrumentos de capitalização e poupança de empreendedores e população de baixa renda. Pequenas mudanças legais e uma aplicação de mais R$ 1,25 bilhão de reais.

Instalação de 300 Sociedades Garantidoras de Crédito no modelo da AGC de Caxias do Sul e como as que o SEBRAE está estimulando, com uma capitalização inicial de 10 milhões de reais para cada uma, totalizando mais R$ 3 bilhões de reais.

Investimento de capitalização no Projeto: R$ 9,5 bilhões de reais. Custos operacionais iniciais: R$ 500 milhões, para contratar assessores, consultores, educadores, contadores, advogados, técnicos, etc… para em um ano, um ano e meio, injetar energia nas comunidades e viabilizar a instalação dessas organizações.

Exigência: desburocratizar os processos, romper os paradigmas relativos à aplicação de recursos na sociedade civil.

Total a investir: R$ 10 bilhões. Pouco dinheiro demais! 0,8% do crédito no país! Ninharia. Seria quase como a aplicação de uma Tobin Tax na realidade brasileira. Apenas um orçamento do Bolsa Família, mas com perenização dos resultados!

Talvez devêssemos ser mais ousados, e multiplicar por três ou cinco esses números, mesclando um aumento na quantidade de organizações com um aumento na capitalização inicial necessária. Mas, como sei que para os pobres, pensa-se sempre em valores irrisórios, vamos nos ater aos R$ 10 bilhões.

A maioria desses recursos poderia ser reembolsável em prazo de 5, 8, 10 anos. Sequer precisaria ser doação!

Isto sim teria impacto de um movimento virtuoso capaz de irrigar as comunidades não apenas com dinheiro, mas com AUTONOMIA. Seriam organizações independentes do Estado. Cooperativas e OSCIPs: Sociedade Civil.

Abriria um novo capítulo no desenvolvimento brasileiro.